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ENTREVISTADO

Moacyr Scliar
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Entrevista com
o autor Moacyr Scliar
Moacyr Scliar é escritor, médico e um dos
imortais da Academia Brasileira de letras, ocupando a cadeira de nº
31. Scliar já escreveu mais de 80 obras, muitas foram traduzidas
para mais de 20 línguas.
Ademir Pascale: Como foi o início da sua trajetória como escritor?
Moacyr Scliar: Comecei a escrever desde criança; minha mãe,
professora, alfabetizou-me e estimulou-me a ler. Meu pai, por outro
lado, imigrante como minha mãe, era um grande contador de histórias
e foi dele que adquiri o prazer da narrativa que, seguindo o exemplo
de Monteiro Lobato e de Érico Veríssimo eu queria colocar no papel.
Minhas primeiras histórias eram contos infantis; a entrada na
Faculdade de Medicina ampliou o horizonte de minhas experiências e
foi na Faculdade que publiquei meu primeiro livro de contos.
Ademir Pascale: Qual a causa da escolha pela Medicina?
Moacyr Scliar: Foi uma motivação diferente daquela que me levou à
literatura. Em criança eu tinha muito medo de doença. Eu não tinha
medo de ficar doente, não era, e não sou, hipocondríaco; mas quando
meus pais adoeciam eu entrava em pânico. Por causa disso comecei a
me interessar por doenças e pela medicina o que me levou a esta
carreira que foi e é uma fonte permanente de gratificações.
Ademir Pascale: Quais são as principais influências na construção de
suas obras?
Moacyr Scliar: No início, Monteiro Lobato. Depois, Érico Veríssimo e
Jorge Amado. Mais tarde ainda, Dalton Trevisan, Guimarães Rosa,
Clarice Lispector, e Franz Kafka.
Ademir Pascale: Com qual autor você mais se identifica?
Moacyr Scliar: Com os mencionados acima.
Ademir Pascale: O que você diz sobre o tratamento da maioria das
editoras brasileiras com as obras que recebem dos jovens autores que
procuram um lugar no mercado literário?
Moacyr Scliar: Estreantes tem uma tarefa dura pela frente. Editoras
são empresas e como empresas levam inevitavelmente em consideração o
mercado, onde as chances de um escritor desconhecido são pequenas.
Meu conselho aos que estão começando é que tratem de publicar por
todos os meios a seu alcance (jornais, antologias, Internet) e que
concorram a todos os prêmios possíveis. Isto pode aumentar o
interesse das editoras.
Ademir Pascale: Você escreve diversos gêneros literários, mas qual é
o seu predileto e por quê?
Moacyr Scliar: Gosto do conto, pelo desafio. Escrever um bom conto
é, ao contrário do que possa parecer, muito difícil. Mas um bom
conto é um triunfo literário.
Ademir Pascale: Qual a sua opinião referente a adaptação do seu
romance "Sonhos Tropicais", sob direção de André Sturm para o
cinema?
Moacyr Scliar: Acho que foi uma adaptação correta, bem feita, e que
reconstitui muito bem a época de Oswaldo Cruz. Tenho discutido o
filme com estudantes universitários (da área da saúde, sobretudo) e
vejo que eles gostam muito.
Ademir Pascale: Como foi o
dia da posse da cadeira de nº 31 da Academia Brasileira de Letras e
o que sentiu no momento do discurso de posse?
Moacyr Scliar: Fiquei mais emocionado do que poderia
imaginar, e tratei de homenagear aqueles que, de uma forma ou outra,
me ajudaram no caminho da literatura: meus pais, meus professores,
meus amigos, meus editores – e o Rio Grande do Sul, onde tenho
minhas raízes.
Ademir Pascale: Você escreveu mais de 80 obras, algumas foram
adaptadas para mais de 20 línguas. Qual destas obras marcou a sua
vida e por quê?
Moacyr Scliar: O Centauro no Jardim, uma obra em que uso a
metáfora do centauro como símbolo da dupla identidade dos filhos de
imigrantes (meu caso) me deu grande prazer e emoção.
Ademir Pascale: Tenho uma grande admiração por escritores e
pintores que passaram por inúmeros obstáculos para o caminho do
sucesso; muitos, ou a maioria, tinham uma vida atribulada de
problemas de saúde, conjugais e financeiros, como Edgar Allan Poe,
Charles Dickens, Sylvia Plath, Van Gogh, etc. Infelizmente, muitos
não chegaram ao sucesso em vida. Você acredita que uma vida
atribulada aos problemas pode influenciar na construção de
excelentes obras literárias?
Moacyr Scliar: Arte é quase sempre sinônimo de vida
atribulada, por razões óbvias. Acho que os artistas prefeririam
reconhecimento sem atribulações, mas estas acabaram funcionando como
teste para a vocação e para as convicções deles.
Ademir Pascale: Como foi o processo e o porquê da criação da
obra "A Orelha de Van Gogh"?
Moacyr Scliar: O conto que dá título à obra baseia-se no
conhecido incidente da vida do pintor em que ele, num acesso de
loucura, cortou a própria orelha. Mas eu uso essa orelha como
elemento de uma história que fala da relação complicada entre um
filho e um pai.
Ademir Pascale: Poderia fazer um comentário referente a obra
"A mulher que escreveu a Bíblia"?
Moacyr Scliar: Este livro nasceu da observação de um
estudioso da Bíblia, o professor norte-americano Harold Bloom. Para
ele parte do Antigo Testamento foi escrito por uma mulher. Acho
pouco provável que isto tenha acontecido, porque afinal as culturas
do Oriente Médio eram e são eminentemente patriarcais e a designação
de uma mulher para escrever um livro sagrado seria quase impossível.
Mas de qualquer modo fiquei pensando nessa mulher como uma
personagem e daí nasceu a história.
Ademir Pascale: Como foi o projeto Moacyr Scliar
(Documentário em longa-metragem)?
Moacyr Scliar: Ainda está sendo realizado, e acho que sairá
muito bem.
Ademir Pascale: Para finalizar, você acha que os livros são
de fácil acesso para a população brasileira? Caso não, o que poderia
ser melhorado?
Moacyr Scliar: No Brasil, os livros ainda são muito caros em
relação ao poder aquisitivo da população. Isto se deve a um círculo
vicioso: imprime-se pouco porque as pessoas supostamente não lêem,
as baixas tiragens resultam em altos preços e aí as pessoas não lêem
mesmo. Soluções já estão sendo adotadas: edições mais baratas,
distribuição de livros pelo governo, divulgação através da Internet.
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